quinta-feira, 16 de março de 2017

Carta a um amigo calvinista sobre "resistir a graça"

Esta é uma resposta real ao questionamento de um amigo a respeito da questão fundamental que é sobre ser possível ou nao resistir à graça de Deus.

Eu tentei ser o mais suscinto possível ao tratar do assunto, mesmo sendo algo tão precioso, como é a doutrina da graça. Creio que fui bem sucedido e acabei sendo suscinto além da conta.

Mas já é um começo. Pode ajudar quem está aberto, buscando respostas. Talvez seja de pouca valia para quem já está entrincheirado em uma posição teológica. Mas isso não me incomoda, na verdade, porque não é para estes, nem por estes, que eu escrevo este artigo. Mas sim por aqueles como o meu amigo, que ainda estão abertos a perguntar.

Que Deus te abençoe e que esse seja um passo na caminhada de reflexão, para aqueles que já começaram, e um empurrão para aqueles que ainda nem tentaram, conhecer o amor de Deus que excede todo o entendimento.



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Paz meu irmão! Pelo que eu entendi a parte difícil de entender para você foi a questão da graça resistível. Imagino então que as outras partes foram mais fáceis de entender. Com isso em mente, estou enviando apenas alguns versículos e explicações curtas para demonstrar que a doutrina da graça inclui o fato de ela ser resistível. Não são todos os textos bíblicos que apontam para essa doutrina sagrada, mas são suficientes, penso eu, para esclarecer as dúvidas. Eu separei os versículos, começando pelos do NT, que eu penso serão mais relevantes para você à primeira vista, e alguns do AT, que deixam isso ainda mais claro.

Quando Estevão enfrentou o julgamento pelo sinédrio, ele esclareceu que o problema dos seus algozes não era falta de argumentos racionais, provas e evidências, nem falta de ação do Espírito Santo para convencê-los. O problema deles era que resistiam ao Espírito Santo:

Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim vós sois como vossos pais.

Atos 7:51

Jesus, diante de Jerusalém, pronunciou palavras duras de julgamento contra a cidade. Ela havia rejeitado o Messias, e não foi por falta de o Messias querer que ela fosse salva. De fato, o Messias quis, e fez tudo o que era cabível à graça do Senhor fazer para que ela se convencesse, mas ela resistiu. Resistiu porque ela não quis, veja:

Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!

Mateus 23:37

O Espírito Santo pode ser entristecido, e com certeza Ele não é entristecido quando o obedecemos, mas sim quando o resistimos:

E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual estais selados para o dia da redenção.

Efésios 4:30

O Senhor disse que o Seu Espírito Santo não contenderia para sempre com o homem. Ora isso pressupõe que o homem oferecia resistência e, por isso, o Espírito necessitava de contender com ele:

Então disse o Senhor: Não contenderá o meu Espírito para sempre com o homem; porque ele também é carne; porém os seus dias serão cento e vinte anos.

Gênesis 6:3

A ligação entre resistir ao Espírito e entristecer o Espírito é vista claramente neste trecho de Isaías:

Mas eles foram rebeldes, e contristaram o seu Espírito Santo; por isso se lhes tornou em inimigo, e ele mesmo pelejou contra eles.

Isaías 63:10

A doutrina de que é possível resistir ao Espírito Santo, e portanto à graça, é bíblica e sólida.

Não faz parte da sua pergunta, mas eu creio que a doutrina que segue logicamente é a doutrina da universalidade da graça. Ou seja, que a graça para salvação se estende a todas as pessoas, que Deus proveu para a salvação de todas as pessoas, e que as que não são salvas, não o são porque resistem à ação tremenda de amor do Espírito Santo.

Para provar que a graça é universalmente oferecida, eu vou colocar alguns textos bíblicos a seguir, no mesmo método.

São Paulo escrevendo a Tito sobre a prática da vida cristã enuncia sobre a graça:

Porque a graça salvadora de Deus se há manifestado a todos os homens,

Tito 2:11

Não sobrou espaço para erro de interpretação neste versículo: “a graça salvadora de Deus”, o seu amor para com os homens, e a sua oferta de reconciliação, “se há manifestado”, se tornou, não só disponível, mas realmente ativa, “a todos os homens”, sem exceções aqui. A palavra é "homens", não tipos de homens, não raças, não povos, mas homens, indivíduos.

O apóstolo São João, falando da pessoa de Jesus, e descrevendo-o em sua divindade, diz o seguinte:

Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo.

João 1:9

Qual o sentido da palavra luz aqui? É só colocar os nomes no lugar dos pronomes, e fica fácil de entender: todo homem que vem ao mundo vem sob a luz de Cristo de alguma forma. Essa luz capacita todo homem que vem ao mundo para receber a Cristo e aceitar a luz ou rejeitar à luz.

E finalmente, o versículo que foi o divisor de águas na minha vida, o texto que me fez ver que não havia espaço para o calvinismo nas Escrituras Sagradas, é o seguinte:

Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida.

Romanos 5:18

Aqui, São Paulo deixa claro que: a extensão da graça de Deus é tão ampla quanto a extensão da condenação pelo pecado. Assim como a condenação veio sobre todos os homens, a graça veio sobre todos também.



Depois que entendi este texto, o restante da Bíblia se encaixou como mão na luva. Tudo fez sentido. Meu coração se pacificou, e entendi que “Deus é amor” não é mera propaganda, é realidade. Não estou dizendo que todos os mistérios foram resolvidos. Ficou bastante coisa ainda a ser revelada. Mas o que ainda é um mistério não afeta o que já foi revelado: Deus é amor, Deus ama a todos os homens, Deus oferece a sua graça a todos os homens, porque Deus quer salvar a todos os homens. Os que são condenados o são por sua própria insensatez e resistência. Não porque foram incondicionalmente condenados em um decreto secreto, e criados apenas para provar que o decreto funciona - uma doutrina que não encontra nenhum suporte bíblico. 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

A volta de Jesus


Antes de seguir lendo este artigo, aconselho-te a ler São Marcos 13, São Mateus 24, ou São Lucas 21, caso ainda não tenha esses textos de memória. O que vou falar agora não é diferente do que está escrito neles. Estes 3 textos bíblicos são o farol para os demais textos das Escrituras que falam a respeito da vinda de Jesus. Nas palavras de Jesus registradas pelos apóstolos nós encontramos o mapa para interpretar as profecias a respeito do futuro.

Quero falar, antes de tudo, da vinda do Senhor. Me parece que na agenda das Escrituras, o próximo evento histórico crítico a acontecer não é o fim do mundo, nem as próximas eleições, nem o próximo papa, nem a próxima guerra. Não é o aparecimento do Anticristo, nem da besta, nem do falso profeta. Eu diria, mais ousadamente, que sequer o próximo e grande avivamento que esperamos (ou ao menos desejamos) antes da vinda de Jesus não é o grande próximo episódio crítico para a história da redenção. A vinda do Senhor Jesus, o seu retorno em glória é o evento crítico, esperado, desejado e ansiado pelo seu povo. É esse evento que mudará tudo, dramática, certa, irremediável, e indubitavelmente.

As outras coisas são importantes, mas não são críticas como a vinda do Senhor Jesus. Elas tem seu lugar na história enquanto preparações, e introduções, como que pavimentando o caminho que nosso Senhor pisará quando vier. No entanto, assim como num casamento há muitos convidados, mas a presença dos noivos é mais importante do que a presença de qualquer um deles, assim será na vinda do Senhor. É importante que o Anticristo se manifeste? Sim. É importante que o avivamento aconteça? Sim. É necessário que os falsos profetas se levantem, assim como os falsos cristos? Sim, absolutamente. E será importante o trabalho das testemunhas do reino em todo mundo, sejam as 144.000, sejam as duas testemunhas, seja o testemunho dos anjos? Sim, com certeza. Mas é a vinda do Noivo que a Noiva aguarda. Ela compreende a necessidade dos outros eventos, mas é este evento que muda tudo.

Há muitos eventos sobrenaturais que foram prometidos. Muitos acontecendo agora, outros que estão por vir. Mas O EVENTO sobrenatural que esperamos e que desejamos, não é outro senão Aquele que há de vir vindo, sobre nuvens, com clangor de trombeta.

Sobre a vinda de Jesus, devemos aguardar que seja, primeiro, visível, segundo, imprevisível, terceiro, gloriosa, quarto, certa.

Visível, porque “Eis que vem com as nuvens, e todo o olho o verá, até os mesmos que o traspassaram; e todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Sim. Amém.” (Ap 1.7) e porque "verão vir o Filho do Homem nas nuvens” (Mc 13.26).

Todos verão. Alguns pensam que será por meio da TV ou da internet. Eu, sinceramente, creio que não. Talvez possa ser transmitido via TV, mas eu creio que será maior do que isso. Será um evento tão mais glorioso do que o sol, que brilhará em toda a Terra, até onde ainda for noite. De alguma forma, penso, todos olharão para os céus na direção de Jerusalém e verão a mesma gloriosa e terrível visão do Filho do Homem vindo nas nuvens.

“Até mesmo os que o traspassaram” talvez por causa da ressurreição dos mortos, mas eu creio que muito mais por causa dos perseguidores da igreja que estarão vivos quando isso acontecer. Como Jesus disse a Saulo “por que me persegues?” enquanto ele na verdade perseguia a igreja, creio que o Senhor será visto pelos que o perseguirem enquanto perseguem a igreja que estiver viva naquela época (que bem pode ser esta em que vivemos).

Será imprevisível, porque o Senhor já disse “daquele Dia e hora, ninguém sabe, nem os anjos que estão no céus” (Mc 13.32) e “não sabeis quando chegará o tempo” (v.33) e “vigia, pois, porque não sabeis quando virá o senhor da casa” (v. 35).

Por isso é penoso ouvir um teólogo que diz que o Senhor não pode voltar agora, porque tal e tal profecia ainda não se cumpriu, ou que o Senhor já voltou, e não temos que esperá-lo.

Alguns pensam que Jesus não pode voltar imediatamente porque o Anticristo tem de se manifestar antes. Mas eu diria que ele já pode ter se manifestado e nós não termos tido coragem de identificá-lo. Digo que o Anticristo, talvez, pode ser um sistema de coisas que já está se manifestando, não necessariamente um indivíduo (embora eu, particularmente creia que é, ou será, um indivíduo). A história está cheia de candidatos a Anticristo que muito bem caberiam nas profecias bíblicas (Nietzsche não é nenhum deles, só para constar). O primeiro que caberia como uma luva foi Nero, e depois dele tantos outros, e ainda hoje.

Outros dizem que Jesus não pode voltar agora porque a igreja ainda não cumpriu a sua tarefa, pois ainda há povos não alcançados, ou porque o mundo ainda não foi cristianizado. Mas eu diria que a igreja já tinha cumprido sua tarefa nos tempos de São Paulo. Pelo menos ele escreveu assim.

Jesus nunca condicionou a sua vinda a um determinado desempenho da sua igreja na evangelização do mundo. Pelo contrário, justamente porque o desempenho da igreja é irrelevante para determinar o tempo da vinda do Senhor é que ele nos mandou trabalhar enquanto esperamos, pois ele pode voltar agora e nos pegar despreocupados em cumprir a nossa tarefa.

Ele pode vir e nos achar preguiçosos e inúteis, vagando pelas veredas do mundo para “aproveitar a vida” enquanto a missão está inacabada. O servo não deve descansar enquanto seu Senhor está trabalhando, o discípulo não deve dormir enquanto o Mestre está acordado. O servo não é maior do que o Senhor, nem o discípulo maior do que o Mestre. Se o Pai trabalha nós devemos trabalhar, e não devemos nos tornar arrogantes, pensando que o Senhor está em uma fila esperando até que nós, por nossa boa vontade decidamos fazer o nosso trabalho e chamá-lo para vir nos buscar porque já preparamos a casa. Ele virá, estejamos preparados para recebê-lo ou não. Por isso, porque é imprevisível a data de sua vinda, é que devemos sempre trabalhar, e lutar com todo o afinco para que, quer Ele venha de manhã ou à meia-noite, não nos encontre preguiçosos.

Será gloriosa, porque desta vez será diferente de quando Ele veio humilde, em uma manjedoura, em extrema pobreza e miséria, sentado em um jumentinho emprestado, sem vestes reais, sem pompa, sem anúncios, sem poder militar ou político.

Desta vez, o Senhor virá “com grande poder e glória” (Mc 13.26). Anjos o cercando, som de trombetas, um exército de santos, de todas as gerações, mudanças cósmicas impressionantes. O Senhor virá derrotando exércitos, neutralizando todo poder bélico humano. Ele é a pedra pequena que quebrou os pés da estátua em Daniel e cresceu e encheu a terra toda. Ele é aquele que derrotará o Anticristo com um sopro da sua boca. Ele é aquele que derrotará a Gogue, rei de Magogue. O Senhor é o seu nome. Ele é Kyrios, Ele é o Rei dos reis e Senhor dos senhores – não é isso que está escrito na sua coxa?

Portanto, Ele virá, então, para julgar a terra. Nunca mais o Senhor será julgado por homem algum, como foi da última vez. Nunca mais o prenderão, nunca mais o esbofetearão, nunca mais o humilharão nem cuspirão, nem ameaçarão. Eles zombaram Dele, mas desta vez tremerão diante Dele.

Não haverá jornalistas blasfemando do Senhor, como vemos hoje. Nem falsas religiões dizendo coisas horríveis contra o Senhor. Nem falsos profetas, ou falsos mestres serão admitidos. Imagine o choque que será para a filosofia, a ciência, e todos os ramos do conhecimento, quando Aquele que desprezavam como uma lenda antiga e bizarra de gente ingênua e odiável estiver diante de seus olhos.

Os ateus que sempre pediram uma "prova incontestável e visível" do Senhor, desprezando todas asprovas já incontestáveis que Ele deixou, terão aquilo que desejam, mas será tarde demais. O Senhor virá, mas com espada, com cetro de ferro, inquebrável. Ele não será dobrado por ninguém. Satanás não O levará a monte algum, não lhe mostrará nada, nem ousará oferecer-lhe qualquer coisa, como afrontosamente fez da primeira vez que o Senhor veio. Todos estarão calados diante Dele. Só uma luz brilhará, só um nome será louvado: o do Senhor!

Participarão da Sua glória os que participaram da Sua humilhação. Serão honrados os que o honraram. Reinarão com Ele os que já o serviam como Rei. E os rebeldes serão julgados.

A vinda do Senhor é certa. Tão certa quanto a Sua ressurreição. Se alguém crê na ressurreição, deve crer na vinda do Senhor pelos mesmos motivos. Aquele que prometeu que ressuscitaria ressuscitou. Ele também prometeu retornar, como poderá não cumprir esta promessa? Se cremos que o Senhor está vivo, nada pode ser mais natural e lógico do que crer que o Senhor virá. Se vivemos pela Sua ressurreição, é necessário que ressuscitemos pela Sua vinda.

Nenhum anseio é mais profundo para quem ama o Mestre vivo, do que vê-lo, e encontrá-lo face a face. E isso ocorrerá quando o Senhor vier. Ouço muito dizerem que o que mais lhes marcou no livro de Jó foi o texto que diz, “conhecia-te só de ouvir falar, mas agora os meus olhos te veem.” Me parece interessante como alguns julgam que já tiveram essa experiência porque oraram e sentiram o Espírito em seu coração, ou porque ouviram uma mensagem pregada e foram profundamente tocados. Para eles eu diria que isso é muito bom e maravilhoso. Mas ver o Senhor com os próprios olhos será algo real, literal, verdadeiro, não figurado, não uma comparação ou um sentimento interno, mas uma realidade para aqueles que o amam, e amam a Sua vinda.



Assim, concluímos mais um capítulo das nossas meditações sobre escatologia. Só para lembrar o leitor, quero dizer que eu desejava escrever sobre missões, mas não posso sem antes escrever sobre escatologia. Se você for um leitor atento já começou a perceber como as duas coisas estão intimamente ligadas.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Porque Jesus falou de escatologia ou o temível escathon (3)



Em São Mateus, o Senhor Jesus nos contou uma parábola de um servo que ficou responsável por cuidar dos negócios do seu senhor enquanto este saía em uma viagem, longa ou curta, o Senhor não menciona. O que o Senhor Jesus menciona é que o servo não sabia a que hora o seu senhor voltaria. Então, o Mestre disse que, quando o senhor voltasse, o servo que cuidou bem dos negócios do seu senhor durante a sua ausência seria bem-aventurado, promovido pelo seu senhor.

E, agora entra a razão de discutirmos escatologia, se o servo não cuidar bem da casa do seu senhor? “Mas se aquele mau servo disser no seu coração: O meu senhor tarde virá; e começar a espancar os seus conservos, e a comer e a beber com os ébrios,virá o senhor daquele servo num dia em que o não espera, e à hora em que ele não sabe, e separá-lo-á, e destinará a sua parte com os hipócritas; ali haverá pranto e ranger de dentes.” (Mateus 24:48-51)

Note que o erro do servo negligente foi, primeiramente, um erro teológico. Existiu um erro moral também, mas começou com um erro teológico. Ele disse em seu coração “O meu senhor tarde virá”. Ele não disse, “o meu senhor não virá”, mas disse, “tarde virá”. Esse erro teológico deu ocasião ao erro moral de espancar os seus conservos, e comer e beber com os ébrios. Ele poderia ter cometido só o erro teológico de ter pensado em seu coração que o seu senhor demoraria para vir. Mas ele adicionou ao erro teológico o erro moral de viver de uma maneira dissoluta e desobediente.

No nosso caso, explicando em miúdos, errar na escatologia não resulta imediatamente em pecado, mas dá ocasião para o pecado. Se não sabemos o que esperamos, é muito provável que não saberemos como esperar corretamente. Se não sabemos o que o Senhor nos prometeu com relação à sua vinda e à consumação de todas as coisas, é muito provável que não saberemos viver como Ele deseja enquanto esperamos. E não sou eu que estou dizendo isso, é o Senhor.

Por essa razão, queremos evitar o erro moral que é mortal, colocando um parapeito de conhecimento das promessas, uma proteção que evite que nós erremos no que esperamos, para não errar no como esperamos.

Eu creio que quatro doutrinas essenciais tem que ser guardadas em nossos corações independente do modelo que escolhermos.

Primeiro: a volta de Jesus pode acontecer a qualquer momento. Jesus frisou tanto isso e a importância de manter isso em nossos corações que chegar a ser desnecessário repetir.

Segundo: haverá ressurreição dos mortos. Dos justos para a vida eterna, e dos ímpios para a condenação eterna. Essa ressurreição não ocorrerá antes da vinda do Senhor.

Terceiro: haverá um julgamento. Todos terão de encarar o juiz. A Bíblia é tão clara sobre isso ao ponto de o julgamento final ser um tema recorrente das pregações evangelísticas, ou seja, uma verdade a respeito do fim era a porta de entrada.

Quarto: Jesus reina hoje e reinará para sempre.

Como eu disse antes, sou pré-milenista histórico, e o sou porque creio que isso ó que a Bíblia ensina. Penso que essas quatro doutrinas não são objeto de discussão séria para nenhum crente. Os crentes, em geral, concordam com elas. Mas os outros três modelos falham com essas doutrinas essenciais, mesmo sem que as pessoas que os defendem percebam. E por isso creio que são problemáticos. Não é pecado crer neles, mas creio que é ocasião para o pecado, pois não correspondem à expectativa que o Senhor quis imprimir em nossos corações por sua Palavra.



Continua...

Porque escatologia é importante ou o temível escathon (2)



Há uns quinze anos atrás conheci um rapaz que tinha acabado de se converter. Ele tinha saído de uma vida deprimente e desprezível nas drogas e passado alguns meses em uma casa de recuperação onde se converteu a Cristo e deixou as drogas. Eu conheci logo que ele tinha saído da casa de recuperação, e ele estava procurando um trabalho honesto para recomeçar sua vida e tentar construir alguma coisa boa. Com o currículo e o histórico de vida dele não era fácil. Ele não sabia como fazer nada bem, não tinha nenhuma profissão. Nunca tinha dado atenção aos estudos antes. Então, ele começou a trabalhar como servente de pedreiro.

Um dia, nós combinamos de nos encontrar para fazer alguma coisa, não me lembro bem o que era. Talvez fossemos visitar alguém, ou orar juntos, não tenho certeza. No final nós não fomos a lugar nenhum, e já você saberá porquê. Me lembro de algo nitidamente: o cansaço mental e físico dele naquele dia. Todos os dias de trabalho de um servente de pedreiro costumam ser cheios de serviço pesado. Mas naquele dia ele estava especialmente consternado. Conforme o que ele me disse, o problema era que o seu mestre de obras não achou nenhum serviço realmente necessário para ele fazer, então deu-lhe uma picareta, e mandou ele quebrar o concreto de uma coluna qualquer. Ele passou o dia naquele trabalho que lhe parecia inútil, feito somente para passar o tempo, e isso o cansou mais do que carregar sacos de cimento, carriolas de areia, telhas, bater massa ou qualquer outra coisa.

O nosso espírito, feito à imagem de Deus, é movido pelo propósito. Nós nos sentimos realizados à medida que temos um propósito e acreditamos que aquele propósito é bom e merece ser perseguido. Uma pessoa convicta de algo é mais persistente, e menos propensa a desistir, desanimar, adoecer e parar.

Se o propósito que perseguimos for algo verdadeiro, o potencial é tremendo. E que há que seja mais verdadeiro do que o evangelho? Alguém que está convicto do evangelho, que crê na sua vitória final e inevitável, que crê que o seu trabalho não é vão no Senhor, e que ele tem valor eterno, está muito mais propensa a seguir até o final, e ser fiel em todas as circunstâncias e não olhar para trás nem temer obstáculos e ameaças. É muito mais provável que essa pessoa reclamará menos, murmurará menos, dormirá melhor, comerá melhor, lidará melhor com os problemas cotidianos, pois os verá sob a luz da revelação do fim da história. Ele não se incomoda tanto com as lutas de hoje, e eventuais derrotas, porque olha a vitória certa logo ali a frente. Ele não se sente frustrado pelas inúmeras dificuldades para produzir fruto para o reino de Deus no processo da caminhada, porque ele sabe que o balanço final será infinitamente positivo, e que isso é garantido pela graça de Deus, e não pelo poder humano.

Além dessa vitória final, que é certa, mas está a uma distância que nós não sabemos exatamente como calcular, é um tremendo alívio para o coração daquele que trabalha no campo do Senhor (que, para os fins deste artigo, é a vida toda de todos os cristãos) saber a utilidade e o valor que o Senhor atribui ao trabalho que ele está fazendo hoje mesmo, enquanto a história ainda não terminou, e o estado eterno ainda não começou em toda a sua plenitude.

Se por uma teologia verdadeira, baseada em estudo das Escrituras que seja minucioso, cuidadoso, fiel e iluminado pelo Espírito Santo, o indivíduo perceber que aquilo que está fazendo hoje é abençoado pelo Senhor, tem valor permanente, inclusive para depois da vinda do Senhor, como você acha que ele se sentirá?

Se ele crer que essas almas que está ganhando hoje, serão seus amigos na eternidade, quererá ganhar mais almas?

E se ele crer que a escola que está construindo, ou dirigindo, ou servindo através de suas aulas, contribuirá para produzir salvação e justiça eternas na vida daquelas crianças com quem ele trabalha hoje, você acha que ele se sentirá entusiasmado para acordar as cinco da manhã em uma segunda-feira para ensinar crianças a arte da matemática, a história do mundo e os valores cristãos?

E no caso de ele crer que as leis que está promovendo na política do seu país são a manifestação da vontade do Rei do universo, e serão preservadas quando Ele voltar, você pensa que ele será corajoso o suficiente para defendê-las publica e entusiasticamente em todos os lugares onde for, e profissionalmente introduzi-las no diálogo da sociedade para produzir algo que tem valor eterno e que vai beneficiar a humanidade pela eternidade?

Eu penso que sim. E estes são apenas alguns exemplos. Mas eu poderia falar do cristão que projeta prédios, máquinas, programas, aplicativos, faz cirurgias, carrega sacos, vende produtos, e faz isso com o espírito de quem acredita que está fazendo algo para a glória de Deus, e não para a glória do mundo. Todos eles podem ser beneficiados por uma teologia das coisas do fim que seja verdadeira com tudo aquilo que Cristo disse, e não só com uma parte.

O oposto é verdadeiro. Imagine uma teologia falsa, baseada em um estudo das Escrituras que seja viciado, descuidado, ou por qualquer outro motivo impreciso demais naquilo que é mais essencial. Imagine que o cristão, por causa dessa teologia ruim, passe a acreditar que Jesus não pode voltar a qualquer momento, ou que, mesmo voltando a qualquer momento, voltará para nos raptar desse mundo, e acabar com tudo o que quer que seja bom ou ruim que tenhamos feito. Pense que, por causa dessa teologia, ele creia que a maior parte do nosso trabalho não tem valor eterno, exceto os folhetos que entregamos e as vezes que falamos do “plano de salvação” para alguém.



Nesse caso, você pensa que ele tem motivo para se empolgar quando acorda para ir para o trabalho na segunda-feira? Qualquer que seja o trabalho, ele se tornará penoso, e cansativo, não porque seja ruim em si, mas porque o cristão se sente como se estivesse quebrando uma coluna de concreto com uma picareta, arrancando pedacinhos dela, só para gastar o tempo e justificar o seu salário, pois daqui a pouco o mestre de obras virá com um trator e vai arrancar aquele toco de concreto apenas para mostrar que o seu trabalho era inútil.

sábado, 21 de janeiro de 2017

O temível Escathon!


Escatologia é uma palavra grande que assusta muita gente. Na verdade, há muitos líderes cristãos que acham essa doutrina inútil. De fato, eles não diriam isso claramente, mas, uma vez que não dedicam nenhum tempo para estudá-la, muito menos para ensiná-la, mostram claramente que não lhe atribuem importância real, senão teórica e limitada às curiosidades da época de seminário.

Mais importantes do que ela, pensam, são as doutrinas mais “práticas”, menos futurísticas, mais relacionadas ao dia a dia do indivíduo, como as doutrinas éticas do casamento, da família, da criação de filhos, de cura, dos batismos, de missões, etc.

Não é errado pregar sobre essas doutrinas da ética cristã, de missões e etc. É muito importante estudá-las, crê-las, vivê-las e ensiná-las profundamente. O que quero apontar, antes de tudo nessa discussão, é que creio que a escatologia – daqui a pouco veremos o significado dessa palavra grande – não é uma doutrina menos importante, muito menos inútil. Creio que ela é essencial e que dependendo da posição que se tomar com relação a ela, as outras doutrinas serão mais ou menos afetadas.

Isso ficará mais claro quando estivermos no fim da discussão, portanto, tenha paciência. Contudo, é possível introduzir em traços largos o que quero dizer com o fato de que a nossa escatologia influência as demais doutrinas depois que, pelo menos, a palavra escatologia seja definida.

Escatologia é o estudo do eschaton, das últimas coisas. Não é simplesmente o estudo do futuro, mas das últimas coisas. Algumas dessas coisas já chegaram, outras ainda chegarão. O destino da alma após a morte, por exemplo, é parte da escatologia. Perguntas como: a alma está consciente após a morte?, a alma vai para o inferno?, vai para o céu?, como é a existência da alma após a morte?, todas estão inclusas na escatologia tocando ao fim da alma humana. Além disso, a escatologia também trata de outras questões relacionadas ao fim do universo. Perguntas como: o mundo vai acabar?, como vai acabar?, a igreja triunfará finalmente?, a terra desaparecerá?, Jesus voltará?, como será a Sua vinda?, estão inclusas nessa segunda divisão da escatologia.

Esclarecido o que é escatologia, vou tentar mostrar em traços bem largos, sem preocupação com detalhes ou com provar alguma coisa por enquanto, somente para introduzir a ideia, que a maneira como respondemos essas perguntas afetam direta ou indiretamente a maneira como pensamos sobre as outras doutrinas, inclusive as éticas e principalmente missões.

Se você, por exemplo, crer que a alma humana não tem existência ou consciência fora do corpo, tenderá a preservar uma ética do corpo que o venera com mais afinco do que quem crê que a alma existe e tem consciência fora dele. Vide as muitas leis referentes ao corpo que os advogados do sono da alma tem: não coma tal carne (aliás, não coma carne), não faça isso, não faça aquilo, etc. Note que isso não é uma regra inquebrável, mas estabelece uma tendência ética que é visível e palpável no cotidiano dos que creem, na cultura que eles formam ao redor daquela posição teológica.

Se a sua igreja crer que triunfará finalmente na história, a sua tendência será de envolver mais a igreja nos assuntos da política, das leis, da cultura e da sociedade, pois vocês crerão que são agentes ativos num processo histórico de expansão do Reino de Deus. Se vocês crerem que a igreja será eventualmente derrotada e tirada do mundo às pressas e secretamente para que o Anticristo tome o controle, a sua tendência será não se envolver nas questões políticas, na construção da sociedade, já que será um esforço inútil, e alguns até vão dizer que será uma colaboração para o reino do Anticristo.

Mais uma vez, isso não é uma regra inquebrável. As igrejas podem quebrar essas regras e trabalhar de forma inconsistente com a sua posição quanto à escatologia. Mas o fato é que a tendência está lá, e ela estabelece uma mentalidade definida que, mais cedo ou mais tarde, com maior ou menor intensidade, se mostrará na prática.

Não quero tratar desta vez sobre o destino do homem após a morte, mas quero tratar mais das questões relacionadas ao universo, especificamente o divisor de águas que é o milênio. Portanto, nos parágrafos a seguir pretendo dar um panorama das posições que existem dentro do espectro ortodoxo, ou seja, dentro do verdadeiro cristianismo, excluídas as escatologias ateístas, liberais, e heréticas em geral. Não pretendo defender ou refutar nenhuma delas por enquanto. Apenas apresentar, em linhas gerais, o que elas significam e qual o panorama do fim do universo que elas propõem.

Talvez, no futuro, eu passe por cada uma delas refutando as que creio estarem equivocadas, e defendendo a que creio estar correta. No entanto, é justo desde já explicitar que sou um pré-milenista histórico. O que significa que, bem, daqui a pouco eu explico.

A Bíblia fala do milênio explicitamente em Apocalipse 20.1-6, em que trata da prisão de Satanás por mil anos, durante os quais a igreja reina com Cristo. A cristandade se divide aqui em dois grupos principais que depois se subdividem em outros grupos. Primeiro, os que creem que a segunda vinda de Jesus é absolutamente necessária para inaugurar esse milênio, estes são os pré-milenistas. Segundo, os que creem que a segunda vinda de Jesus só ocorrerá após o milênio, estes são os pós-milenistas.

Os pré-milenistas são subdivididos em dois grupos principais, os dispensacionalistas (também chamados de darbinistas, ou pré-tribulacionistas), e os históricos (ou pós-tribulacionistas).

Os dispensacionalistas creem que o Senhor Jesus voltará sete anos antes do milênio, mas não descerá até a terra, antes apenas até os ares, e arrebatará de forma secreta e invisível o seu povo, que ficará com ele por sete anos. Durante esses sete anos, que são a tribulação, o Anticristo governará o mundo, até que, no fim dos sete anos, o Senhor Jesus voltará acompanhado da sua igreja e derrotará o Anticristo e estabelecerá o milênio. Esta é a posição mais popular entre os evangélicos dos últimos, digamos, 100 anos de história da igreja.

Os históricos, entre os quais eu, creem que o Senhor Jesus voltará e estabelecerá o milênio. É isso, basicamente. Alguns, como eu, creem num período de tribulação antes da vinda do Senhor, mas acreditam que a igreja estará aqui, lutando, dando seu próprio sangue, e vencendo, pelo Reino de Deus até que o Rei venha.

Os pós-milenistas são subdivididos em outros dois grupos principais. Os pós-milenistas, propriamente ditos, e os amilenistas.

Os pós-milenistas creem que a igreja estabelecerá o milênio conquistando o mundo para Cristo por meio da evangelização e do ensino. E que Jesus, assim, reinará no mundo por meio da igreja. Ao final desse período, Jesus virá pessoalmente para julgar o mundo e estabelecer o estado eterno, de glória para os crentes, e tormento para os incrédulos.

Os amilenistas, por sua vez, creem que o milênio já está ocorrendo, mas não terra e sim no céu. Uma vez que Cristo e sua igreja triunfante reinam gloriosamente nos céus, não há que se esperar por nenhum reino visível na terra. Eles creem que Jesus pode voltar a qualquer momento, não para estabelecer o milênio, mas para julgar o mundo e estabelecer o estado eterno.

Como eu disse, isso é apenas um panorama, em linhas gerais, sem preocupação com detalhes. Se entrarmos nos tais detalhes, as subdivisões vão aumentar bastante. Mas todas elas se encaixam mais ou menos nos modelos que eu apresentei aqui.

Embora eu creia que a minha posição esteja certa, pelo menos mais certa que as outras, quero esclarecer que todas as quatro são posições ortodoxas. Nenhuma delas é herética, embora, em alguns sentidos, algumas tenham de estar erradas para que uma esteja certa. Todas, contudo, concordam em que: 1- Jesus Cristo voltará, 2- Ele julgará a todos, 3- ímpios serão condenados eternamente, 4- crentes serão salvos eternamente, 5- no final a vitória é nossa, de um jeito ou de outro, 6- Cristo reinará eternamente, 7- a igreja reinará com Ele, e outras tantas que eu poderia ficar aqui listando. Estas, porém, são suficientes para exemplificar porque todas são ortodoxas.

Ainda é importante dizer que o Apocalipse não é o único livro sobre escatologia na Bíblia. Aliás a Bíblia está cheia de escatologia do começo ao fim. E esses modelos são feitos com a intenção de nos ajudar a entender as promessas que nos foram feitas e a viver na expectativa do seu cumprimento. É nisso que as diferenças fazem diferença! Pois um modelo mais ou menos falso, nos fará ter expectativas mais ou menos falsas e afetará a nossa forma de esperar.

Num próximo artigo quero tratar de um outro critério, além do milênio, que eu creio que é muito importante para a nossa discussão: o critério otimismo ou pessimismo.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Por que calvinismo e arminianismo?

Este artigo não é uma defesa de nenhuma das duas posições. Não porque eu seja contra discutir isso, o que ficará mais claro ao longo do texto. E sim porque quero falar de algo que é mais essencial e importante e que subjaz da discussão entre esses dois grupos que, aliás, não são as únicas duas posições possíveis no assunto soteriologia. Escolhi falar deles porque fica mais fácil de entender o que vou dizer se eu usar essa discussão como exemplo do que eu se eu disser, por exemplo, “por que discutir luteranismo e calvinismo”, ou “por que discutir darbinismo e pós-milenismo”. É bem possível que muito mais pessoas já tenham testemunhado ou se envolvido na questão entre calvinismo e arminianismo do que entre calvinismo e luteranismo, e portanto estejam mais familiarizadas com o que vou dizer.

Além disso, antes de começar a falar o que realmente quero falar, é bom, a bem da honestidade e da imparcialidade, repetir para o leitor que eu sou arminiano. Essa é minha posição, e eu gosto muito de ser arminiano. Alguém dirá que defendo esta posição porque gosto de Armínio. Eu diria que sim, é verdade, gosto muito dele. Mas a pergunta certa é: por que gosto dele? Gosto de Armínio porque ele interpretou as Escrituras muito melhor do que os outros. Em outras palavras, a minha questão é que as Escrituras me parecem dizer exatamente o que Armínio disse no que toca à predestinação e eleição. Portanto, sim eu creio que a Bíblia é o livro mais arminiano que eu já li. E é por isso que sou arminiano.

Dado este fato, eu gostaria de discutir sobre o pano de fundo das discussões entre arminianos e calvinistas. Com isso quero falar dos pressupostos que fazem o fundamento para que esse tipo de discussão exista.

Eu conheço irmãos dos dois lados que não se consideram irmãos. Alguns que dedicam os seus estudos, quiçá a sua própria vida, ao esforço de refutar irrefutavelmente o lado oposto. Eu creio que há muito exagero nisso, às vezes. E embora eu creia que possamos trabalhar juntos, e servir ao Senhor juntos, mesmo tendo posições diferentes nestes assuntos, principalmente quando o trabalho é missionário, ainda admiro os irmãos que se esforçam para entender e explicar esses assuntos, mesmo os que se esforçam para me dissuadir. Jájá chego lá.

É que vejo um mal muito pior rondando a igreja de Jesus do que os arminianos e calvinistas com suas discussões intermináveis. Um mal mais devastador e mais tenebroso do que todas as palavras funestas que calvinistas e arminianos já disseram um para o outro.

Que é esse mal? Explico. Quando um arminiano e um calvinista discutem, eles podem se considerar como estando em dois lados totalmente opostos de pensamento. Um crê que o homem tem algum tipo liberdade de escolha, outro crê que o homem não tem liberdade nenhuma. Um crê que Deus ama a todos, outro crê que Deus só ama alguns. Um crê que a justificação é pela fé, outro que a fé é pela justificação. E as diferenças vão se aglutinando.

Eles podem pensar que não tem nada em comum, e às vezes podem até crer que servem deuses diferentes. Um famoso calvinista já falecido disse que os arminianos eram adoradores de Baal. E outros, bem vivinhos ainda hoje, dizem que o Deus dos arminianos é afeminado. Alguns arminianos dizem que o Deus dos calvinistas age como um demônio porque cria homens e faz com que eles pequem para que vão para o inferno. E os elogios mútuos seguem nessa toada em alguns círculos, e nós sabemos disso, alguns de nós até já dissemos isso, e muitos já se arrependeram profundamente de o terem feito. É de fato lamentável que tantas blasfêmias tenha sido ditas para defender uma doutrina tão preciosa como a doutrina da graça.

Contudo, por mais distantes que eles se considerem estar, tanto uns como outros guardam algo essencial em comum. Calvinistas e arminianos, tanto os melhores e mais espirituais quanto os piores e mais carnais, quando discutem isso olham para o mesmo livro, concordam que esse livro contém a verdade absoluta sobre Deus e o mundo, e que é possível descobrir o que o Autor quis dizer ao inspirar o livro.

Eles abrem a Bíblia em diversos textos e tentam interpretar o texto buscando o real significado. Eles acreditam que se conseguirem mostrar para o seu irmão do lado oposto da discussão que o texto bíblico que estão lendo quer dizer que isso ou aquilo, o irmão do outro lado aceitará e se convencerá. Ambos se esforçam nesse sentido, lendo a Bíblia cada vez mais, de várias maneiras, usando dicionários, concordâncias, comentários, orando, jejuando, sempre na busca insaciável pela verdade. Porque eles acreditam que a verdade existe e que ela merece ser defendida.

Porém, creia você ou não, esse pressuposto de verdade que pode parecer tão óbvio, foi abandonado na teologia contemporânea. Você já se perguntou porque é que os teólogos da prosperidade não discutem calvinismo e arminianismo? Bem, porque para eles não interessa o que o Autor do Livro quis dizer! Por que é que os liberais acham essa discussão ultrapassada e inútil? Porque eles pensam que o que o Autor do Livro quis dizer, não importa!

Um certo famoso, Caio Fábio, queridinho dos liberais, disse que essa discussão é ultrapassada, é uma coisa do século XVII, XVIII, não dos nossos dias. Por que? Porque nos séculos XVII e XVIII as pessoas pensavam em termos de verdade. Elas liam a Bíblia e queriam saber a verdade, então elas discutiam sobre o significado da Bíblia. Mas nos nossos tempos, as pessoas não pensam mais em termos de verdade e sim de opinião, de ideologia. Você pode ler a Bíblia e chegar em uma conclusão. Se for boa para você, que seja verdadeira para você. Mas para mim, eu cheguei em outra conclusão, diferente da sua, mas verdadeira para mim.

Não há diferença essencial entre os teólogos da prosperidade, e os liberais. Porque para ambos o que o texto diz depende de quem está lendo, de para quê o leitor quer usar o texto. O Autor do Livro, não apita mais nada. Estes cometeram uma blasfêmia muito pior do que a dos calvinistas e arminianos inflamados. Os últimos ainda querem ouvir o que Deus está dizendo, mas os primeiros nem querem mais saber o que Ele disse.

Os arminianos e calvinistas tem mais em comum do que imaginam, porque para eles o que o Autor do Livro disse é essencial! É tudo! É mais importante do que qualquer outro assunto de que se possa conversar. Eles estão absorvidos pela busca da verdade. A Palavra de Deus tem valor inestimável, inextinguível, inexplicável, absoluto e eterno. Que eles demorem mais mil anos discutindo predestinação e eleição até chegarem a uma conclusão, eles não vão parar, porque o valor da verdade de Deus é maior do que mil anos, é a eternidade. Contudo, os intelectuais, os da prosperidade, os liberais, não acham que a discussão valha o tempo que gastamos com ela, porque a verdade não é eterna, ela muda conforme os tempos, as culturas, os homens. Para eles a Bíblia não é mais Sagrada, é “biblos”, livros antigos que podemos usar hoje.

Não quero com isso dizer que não há exageros nessas discussões. Mas quero dizer que prefiro um milhão de vezes um irmão que ama a Bíblia e tenta me provar que estou errado com base nela, do que um que diz que não se interessa pelo que ela diz, e, portanto, não quer me provar nada, nem me convencer de nada. Eu prefiro um corajoso, que mesmo se enganando muitas vezes, e tropeçando em muitos textos até descobrir o real sentido, tenha ousadia de ler a Bíblia e querer encontrar nela a verdade, do que um covarde que se esforça para nunca entender o que texto quer dizer, que evita toda e qualquer discussão, simplesmente porque não acha a verdade algo importante e valioso.

Eu amo meus irmãos calvinistas, embora creia que eles estão profundamente enganados, e que o erro deles causa muitos problemas na igreja. Eu gostaria que todos os calvinistas nutrissem o mesmo sentimento de amor por mim, e me recebessem nas suas igrejas da mesma maneira como são afetuosamente recebidos na minha. Contudo, prefiro muito mais ser detestado por um calvinista que pensa que entendi o texto errado, do que ser tolerado por um liberal que não se interessa pelo que o texto diz.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Sobre ateus e ladrões de pudim


Imagine uma senhora de meia idade, com seus dois pequenos filhos. Ela faz um pudim delicioso para a sobremesa do jantar. Coloca-o na geladeira e chama seu filho para dar a seguinte ordem: não coma do pudim, até depois do jantar.

As horas vão passando enquanto essa bela senhora prepara o jantar, e o seu filho menor, com muito mais impaciência e gula do que fome, sorrateiramente abre a geladeira e, na pressa para não ser pego, dá uma enorme bocada no pudim.

Passa o jantar, e sua mãe abre a geladeira para servir o pudim. Nesse momento, um dos meninos, o mais velho, ansiosamente aguarda pelo suculento e saboroso pudim, lambendo os beiços e incapaz de ocultar a sua excitação infantil pela guloseima que sua mãe preparou. O outro menino, não tão ansioso assim, mas um pouco receoso, finge que deixou alguma coisa cair embaixo da mesa.

A mãe olha o pudim e, pelo tamanho da mordida, já sabe exatamente quem foi que desobedeceu a ordem. No entanto, como uma boa mãe, ela decide dar a chance para que ele confesse a transgressão.

Ela chama o jovem rapaz e pergunta: “João, você sabe quem comeu o pudim antes do jantar?”

“Foi o Pedro”, o menino responde afoitamente, enquanto seu irmão faz uma cara de total surpresa e revolta pela falsa acusação que acaba de receber.

Este bem que poderia ser um episódio autobiográfico, mas minha mãe teria de me lembrar se é que eu já fiz algo assim. Ou, talvez, meu irmão. Ele com certeza não esqueceria desse fato, como irmãos sempre lembram os pecados uns dos outros.

Contudo, não quero falar de pudim, nem de meninos arteiros. Quero falar de ateus. Pois, o nosso menino João, por mais desonesto que seja, é mais coerente do que eles.

João vê um pudim, e assim que o vê 
sabe que alguém o fez. Por coincidência, ele sabe que foi sua mãe quem fez. Então, sua mãe vê uma mordida no pudim, e sabe que alguém mordeu o pudim, e por coincidência ela sabe exatamente quem foi que mordeu, somente pelo tamanho da bocada. Quando a mãe chama o menino a julgamento, ele sabe que a mordida existe porque alguém mordeu. Então, ao invés de arrumar alguma explicação exótica para a mordida, ele tenta responsabilizar outra pessoa, sem negar o fato de que a mordida é a prova de que alguém mordeu.

Na verdade, o João ilustra bem o que os antigos (e novos) idólatras faziam. Eles olhavam o universo, com toda sua beleza, minuciosidade, proporção, e todas as suas leis, utilidades e possibilidades, e sabiam que tudo isso era a prova inequívoca do Criador. O problema é que não querendo servir ao Criador, eles atribuíam a criação a algum outro ser que não o Deus único e verdadeiro.

Na verdade os ateus fazem o mesmo, em certo sentido, que os propriamente idólatras, mas disso não quero falar agora. Quero falar da impressionante criatividade (e desonestidade) dos nossos amigos ateus quando se trata de falar da origem do universo, da vida e, especialmente, da vida inteligente.

Quando um ateu se depara com um belo quadro pintado, com nuvens, pessoas, árvores, cores, etc., jamais ele imagina que o quadro é fruto de um acidente. Uma explosão causada por uma série de reações químicas não previstas em uma fábrica de tinta local que por uma deliciosa coincidência fez as cores caírem no lugar exato dando a impressão de que aquele amálgama de tinta e pano formava imagens de pessoas e lugares, e até mesmo de que se trata de um quadro pintado por alguém, uma pessoa com pensamentos, planos e propósitos.

Não. Jamais eles diriam uma bobagem dessas. Seria suicídio intelectual. Seria pedir a zombaria do público. Seria como assinar a própria matrícula no manicômio.

E o pudim! Jamais um ateu diria que o pudim é o feliz resultado de uma pura coincidência de fatores quando um terremoto fez os ovos caírem em cima da lata de leite condensado, e, uma vez que o terremoto durou bastante tempo, misturou tudo, e depois os outros ingredientes foram se aproximando e se misturando, então um vulcão próximo explodiu, e o calor cozinhou aquela massa no banho maria por alguns minutos, sem, de alguma forma, torrar tudo. Inclusive, as cascas do ovo e a lata de leite condensado elas... am...? Bem...? Sabe é como dizia aquele cientista famoso...? Como é o nome dele...? Bem, ainda não temos uma explicação científica apropriada para isso, mas é melhor continuarmos com a nossa teoria da explosão cega, e do acidente, ou acidentes, e das coincidências felizes do que sair por aí como um fanático dizendo que foi sua mãe que fez o pudim.

Pois é. Eles jamais diriam algo imbecil assim a respeito de um belo quadro pintado, ou de um pudim, ou de um prédio, ou alguma outra coisa qualquer. Mas quando veem o universo, essa imensidão escura depois do céu, e essa minuciosidade infinita dentro de cada espécie, ou os sistemas da natureza, e de cada ambiente específico, eles contam uma história muito parecida com isso.

Tudo surgiu espontaneamente! Foi uma explosão! Nós não sabemos quem foi que explodiu, ou porque não explodiu antes. Mas, assim como lançar granadas é o método mais recente para construir escolas, o universo todo também é fruto simplesmente de infinitas bombas auto explodidas em diferentes momentos. De uma surgiu o universo, de outra a terra, de outra a vida, e de outra o ateu.

Não faz sentido nenhum dizer isso. Mas eles dizem. Agora voltemos à razão.

Veja o céu! Vá pra praia, faça um passeio de barco, um mergulho, observe a criação. Plante um jardim, ou visite um bosque, sinta o cheiro de uma flor. Corra atrás de uma borboleta. Pendure uma rede em uma árvore e ouça os pássaros. Tente cantar como um deles. Tente vestir-se como um lírio. Dispute uma queda de braço com um gorila. Tente correr com um cavalo para ver quem é mais rápido. Case-se, tenha um filho, ouça ele chorar, e veja o brilho nos olhos do bebê quando sua pequenina boca encontra os mamilos de sua mãe e ele faz aquilo que nunca foi ensinado a fazer. Parece que tudo foi projetado não é? Os seios da mãe foram feitos para a boca do bebê. E ele instintivamente, como se tivesse sido programado para isso, sabe exatamente o que fazer.

Encha um copo de água e beba. Passeie um pouco. No quintal talvez você verá o seu cãozinho se deliciando com a mesma água que você, só que na sua tigela. O boi na fazenda, e todos os animais bebendo da mesma água em todos os lugares. O mesmo H2O que faz a sua vida possível, faz a vida deles possível. Então visite uma fonte e beba a mais deliciosa água saindo da rocha e saiba que ela foi colocada ali, e não foi por você.

Vá para uma horta, e veja como aquela água farta a terra que te dá a comida. Então vá para uma vinha, e veja como nascem as uvas das quais você faz vinho que depois aprecia numa mesa com sua família.

O pasto que você despreza e pisa, não foi feita por você, nem para você, mas para o gado, que come quilos e quilos dele todos os dias, e depois te serve no campo, e na mesa.

O sol, na medida exata para que todos vivam. Nem quente demais, nem frio de mais. Ele e a lua, regulando as marés, as estações. Tudo numa sincronia perfeita que demonstra plano, propósito, sabedoria, inteligência, e desenho.

Claro que a criação é a prova irrefutável do Criador. Ela é a revelação Dele. Da sua divindade, do seu eterno poder, e dos seus atributos, inclusive os invisíveis. Por essa razão a Bíblia Sagrada chama tolo ao que diz que não há Deus. Pois até os cegos conseguem ver uma verdade tão luminosa. O caminho é tão reto, que nem os loucos errarão por ele.

E a mordida no pudim? Como será que o menino João explicaria se fosse ateu? Bem, a mordida no pudim, assim como todas as coisas no universo, simplesmente aconteceu! Ela aconteceu, por uma série de fatores que fizeram com que o pudim mordesse a si mesmo. Assim como o universo criou-se a si mesmo, e a vida surgiu espontaneamente, também o pudim, espontaneamente, se mordeu!

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Sobre o ateísmo


A existência de Deus não é uma questão, na verdade. O fato de que Deus existe é a base e o fundamento de toda existência fora Dele. Noutras palavras, se Deus não existe, nada existe. Se algo existe, Deus existe.

Tal é a certeza do fato da existência de Deus que ela é, na verdade um axioma. Ou seja, uma verdade autoevidente. Um fato que não precisa ser comprovado por evidências, e, embora não necessite, pode até ser demonstrado, assim como as verdades matemáticas tais como que duas linhas paralelas nunca se cruzam. Não é necessário desperdiçar a vida toda observando o seguimento de duas linhas paralelas para ter certeza de que elas não se cruzam mesmo, em nenhum momento na direção do infinito.

É impossível para a mente conceber algo diferente do que o fato de que as duas linhas, sendo paralelas, nunca se cruzarão. Assim, também, é impossível para a mente humana conceber a existência à parte de Deus. E é um desperdício de vida passar os nossos dias conferindo para ver se essas linhas nunca se cruzarão.

Basicamente, é a esse desperdício de vida, de forças, e de oportunidades que se dedicam os ateus. É a isso que você, caso seja ateu, está se dedicando. Você quer provar que duas linhas paralelas se cruzam, que a soma dos quadrados dos catetos de um triângulo retângulo não é igual ao quadrado da hipotenusa. Você quer provar que você não existe, que o mundo não existe, que a ciência não existe, que sua mãe não existe, que seus amigos não existem. Sim, pois, como já disse antes, Deus é o fundamento necessário de toda a existência que não seja Deus. Se você conseguisse, finalmente, provar que Deus não existe, teria então provado, naquele mesmo dia, que você não existe, porque Deus é o seu Criador. Se o Criador não existisse, tampouco existiria a criação.

Agora, para o leitor mais atento, essas palavras podem ser mais um saco de bugigangas religiosas. E seriam de fato se não fossem facilmente demonstráveis. Por isso agora vou começar a demonstrar do que é que estou falando.

Um ateu é alguém que afirma que Deus não existe. Se for mais humilde, ou mais covarde – depende do ponto de vista, diria que é agnóstico pois não tem como provar que Deus não existe, mas não vê razões para crer que Ele exista. Mas, não sendo agnóstico e sim ateu, a nossa personagem diria, categoricamente, que Deus não existe. Que a melhor hipótese é que a ideia de Deus é uma invenção da mente humana para lidar com seus problemas mais interiores, como faz boa parte, se não a totalidade, da psicologia. E, na pior das hipóteses, diria que Deus é uma invenção de uma classe de seres humanos para justificar a opressão de seres humanos de outra classe, como faz a grande parte, se não todos, dos “de esquerda”, discípulos de uns alemães.

Em qualquer caso, ele teria dito que o humano inventou o divino com algum propósito mais ou menos ruim. Nesse caso, ainda, ele teria de dar conta de uma séria de perguntas não respondidas que ficaram para trás, por exemplo: de onde viemos? Temos um propósito para a nossa existência? Qual é esse propósito? O que é certo? O que é errado? De onde vem a vida? Para onde ela vai?

Do ponto de vista de um cristão, que sou, essas perguntas, por mais profundas que sejam, não são difíceis de responder. Eu encontro em Deus a resposta para todas elas. Como uma rocha firme e inabalável, nós sabemos exatamente que fomos criados por Deus, à imagem e semelhança do Altíssimo, razão pela qual somos dotados de auto consciência, inteligência, racionalidade. Fomos criados para glorificar a Deus e sempre nos regozijar Nele. A vida, para nós, é um dom do Eterno, que, nessa qualidade, deve ser preservada, respeitada, assistida, protegida. Temos em Deus a fonte do bem, da justiça, o norte, e o farol que nos aponta o bem a ser perseguido e o mal a ser evitado. Em Jesus Cristo temos, entre tantas outras coisas, o maior exemplo do que é ser bom. E de como seria o ser humano se fosse bom.

Mas como o ateu poderia responder essas perguntas?

Ainda bem que temos uma fonte inesgotável de neo ateus para nos responderem prontamente! Richard Dawkins, Stephen Hawking e Neil DeGrasse aparecem juntos e dizem: não contavam com a nossa astúcia! - enquanto Nietzsche se revira no túmulo, e Jean Paul Sartre dá um sorriso maroto... E eis a resposta: nós somos, não figurativamente mas literalmente, poeira estelar! Sem alma. Sem propósito. Somente partículas. Moléculas aleatoriamente posicionadas, em uma sucessão de acidentes não calculados que geraram uma determinada “organização” química que chamamos de vida. 
Somos descendentes das minhocas - não reencarnações, mas descendência em linha reta. Bactérias  vírus são nossos distantes antepassados. Todos os pensamentos não são mais do que reações químicas no cérebro. Todos os sentimentos também. A moral é uma ilusão criada por esses acidentes feita para preservar essa linda coincidência. Em um resumo bem curtinho, mas fiel, é isso o que eles dizem.

Algum problema com isso? Pense comigo: se aquilo que você pensa que é verdade não passa de uma reação química no seu cérebro, como podemos saber que aquilo é, de fato, verdade? Não podemos saber. Nem nos fiar em meras reações químicas. O fato de que eu discordo de você, então, é simplesmente uma resposta química. Não é mais fruto de reflexão e aquisição de conhecimento pelo espírito, mas simplesmente sinapses. Quem nos garante que essas sinapses correspondem com o mundo real? Ninguém! Lembre-se, para os ateus, Deus não existe. Agora Deus não está lá para garantir que a verdade é verdade. Mas, se não posso confiar nas reações químicas do meu cérebro, então como posso ter certeza que Deus não existe? Bem pode ser que meu cérebro reagiu assim sem nenhuma relação com o fato do mundo real, fora de mim, no qual Deus existe. Nesse caso eu estaria dizendo que Ele não existe, quando na verdade Ele existe, e isso seria fruto de uma reação química infeliz no meu cérebro.

Note, se o ateísmo fosse verdadeiro, não poderíamos ter nada como ciência. Qualquer tipo de conhecimento é impossível no ateísmo. Ele solapa as bases de toda possibilidade de acesso à informação verdadeira e ao mundo real. Por isso, quando disseram que são ateus porque creem na ciência, lembre-se disto. Quando disserem que são racionais, e por isso é que desprezam a fé, lembre-se que eles estão mentindo para você, e para si mesmos.

Isto é absurdo? Você ainda não viu nada! O ateísmo tem outras surpresas na manga que farão você arrepiar os cabelos da nuca.

Uma das coisas que mais ouço de ateus é: se Deus existe, por que há tanto mal no mundo? Misérias, mentiras, maldades, crueldades, fomes, massacres, chacinas, estupros, genocídios, desastres, e tudo que possa ser classificado do lado negativo da moral, pequeno ou grande, é colocado na conta do Deus que eles dizem não existir.

Vamos inverter o discurso, e então a verdade ficará mais clara. Se Deus não existe, não passamos de sacos de areia. Moléculas tão valiosas como as de uma pedra no asfalto. A sua dignidade como ser humano é do tamanho da dignidade de um tijolo da sua casa. Seus sonhos são tão importantes quanto o cantar do grilo na sua janela ou o zumbir do pernilongo no seu ouvido. Você já sofreu por ter matado um mosquito? Então porque sofre pela morte de um ente querido? Já que, no seu mundo, não há diferença alguma entre você, um mosquito e uma cadeira.

Se Deus não existe, a diferença entre você e um punhado de areia de praia e meramente um acidente. Tudo o que acontece com você é um acidente. Não é bom nem mau, somente acontece. A moral é uma ilusão, assim como acabamos de ver em relação à verdade e ao conhecimento. E nesse caso, porque você está usando categorias de bom e mau para falar de Deus? Como você pode dizer que odeia Deus porque Ele é mau, se nem existe bem e mal? E, aliás, se Deus não existe, como você pode odiá-lo?

Mas são poucos ateus que vivem coerentemente com o seu ateísmo. Eles não tem nenhuma base racional, filosófica, ou o que seja, para acreditar na ciência, na verdade, no bem ou no mal. E no entanto, eles fazem julgamentos morais, e dizem que isso é mentira ou verdade a respeito de vários assuntos. Eles amam familiares e amigos, sofrem quando algum deles morre e desejam preservar a própria vida, mesmo acreditando que vida seja somente um organizado de moléculas. Por que? Por que não vivem de acordo com aquilo que acreditam? Por que admiram a fidelidade, a lealdade, a justiça e a verdade, se acreditam que a moral é uma ilusão?

Porque é impossível viver como ateu. É possível falar como ateu. Mas é impossível viver como ateu. Aqueles que ousaram viver como ateus cometeram atrocidades inomináveis. Muitos milhões de almas testemunham do sepulcro contra o ódio incontido e a matança generalizada praticada por sistemas movidos à partir da cosmovisão ateísta.

Assim, a maioria deles empresta os valores da nossa cosmovisão, do cristianismo, e importam esses valores no mundo deles, mesmo sem ter uma resposta coerente e racional para manter esses valores na cosmovisão deturpada que eles mantém.

Por que, então, não admitem logo que Deus existe? Porque admitir que Deus existe é admitir que é réu culpado diante de um Juiz justo. É mais confortável para a mente pecadora negar a existência do juiz, do que admitir a própria culpa e aceitar o julgamento que pesa sobre eles. Mesmo a oferta do perdão, por parte do Rei, não é suficiente para a mente pecadora e depravada. O orgulho, e só ele, explica a negação de Deus. Não existe nada de racional, nada de científico, nada de moderno, nada de sofisticado em negar Deus. É simplesmente o orgulho humano.

A Bíblia não se preocupa em explicar porque que Deus existe. Em linhas gerais, as Escrituras partem do axioma: Deus existe. E a partir de Deus, tudo o mais encontra a sua existência. Mas, quando trata do assunto do ateísmo, a Bíblia diz que “o tolo diz em seu coração: não há Deus”.

Me espanta, na verdade, o dito de que muitos jovens cristãos perdem sua fé quando ingressam na faculdade eis que são expostos a “informações científicas”. Sinceramente, eu duvido disso. Não é verdade. Ninguém perde a fé por causa da razão. E ninguém perde a razão por causa da fé cristã. Mas quem perde a fé cristã perde a razão. Os jovens perdem a fé porque são seduzidos pelo pecado. Porque são enganados pela tolice. Não existe conhecimento nem projeto contra Deus, disse o sábio Salomão.

Quando fiz faculdade também fui abalado em vários momentos, mas não em minha razão. Fui abalado pela atração do mundo. A feira das vaidades que um ambiente acadêmico oferece, não só nas festas e bebidas, mas também nos círculos dos “intelectuais” em que você é imediatamente taxado como ignorante, puritano, e fanático se diz que acredita em Deus ou na Bíblia. Se diz que acredita ainda não é tão ruim como quando diz que aquilo é verdade, realmente verdade, verdade objetiva, e tenta convencê-los disso. Eles não te dão nenhum argumento. Eles não querem saber de argumentos. Eles simplesmente te rotulam e te isolam. E esse desejo de ser aceito, de ser querido, de ser importante, de ser convidado, é, talvez, o que mais me abalou – embora não tenha me derrubado, pois graças a Deus mantive a minha fé intacta e até melhorada – e não qualquer argumento.

Como dizia o bom e velho Lewis, que é um dos meus preferidos, “creio em Deus como creio no sol, não porque eu o veja, mas porque por meio Dele vejo todas as coisas”. Sem Deus, não é possível conhecer, nem ser, nem amar, nem viver. Glória Deus, que existe e que nos ama, e entregou seu Filho por nós.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Sobre autoestima e humildade



“Só não sou perfeito porque sou humilde.”

Aprendi essa frase com um amigo, muito querido, e, como é óbvio, reproduzi-a tanto quanto pude todas as vezes que queria fazer meus amigos rirem, até que, finalmente (o que não demorou muito) a piada perdeu a graça.

Todavia, por mais que seja verdadeiramente uma piada, é o estilo de vida de muita gente. A quantidade enorme de pessoas que anda regurgitando todo o bem que já fizeram, ou que acreditam que fizeram, ou que querem que nós acreditemos que fizeram, é tão grande que, se fosse verdade, o mundo não teria nenhum problema. De fato, já dizia um filósofo francês, ateu, socialista, pós-moderno, com o qual eu não concordo, que “o inferno são os outros”. E assim vive boa parte, se não a maior parte, da humanidade: acreditando que o mundo seria perfeito se todos fossem como eles, e que o problema do mundo são os outros.

Note o problema da autoestima. Uma baixa autoestima é, basicamente, o problema de todo mundo. Pelo menos nessa forma de pensamento. E para resolver esse problema há uma quantidade imensa de livros, autores, psicólogos, filósofos, artistas, todos dizendo basicamente a mesma coisa, e, para ser sincero, usando as mesmas palavras, num mantra constante, ininterrupto, maçante, e viciante: ame a si próprio, cuide de si, faça o que você gosta (só o que você gosta), aproveite o máximo todos os prazeres da vida.

Se o seu casamento não te faz sentir bem consigo mesmo, divorcie. Se seu chefe não te faz sentir bem consigo mesmo, largue o trabalho. Se seu professor não te faz sentir bem, confortável, não o respeite. Se seu líder não te “inspira” a fazer o que você “ama”, não obedeça. Se seu pastor não te faz sentir maravilhoso, inteligente, cheio, forte, abandone-o, critique-o, publique indiretas no Facebook, pare de dar o dízimo. Se seu filho te incomoda, pague uma babá, entrega para a avó, sei lá. Se ele ainda não nasceu, não estava nos seus planos, vai “atrapalhar” a sua “vida”, mate-o.

Por que sofrer, se você pode fazer os outros sofrerem? Por que se humilhar, se você pode humilhar os outros? Por que cuidar dos outros, se você pode cuidar de você mesmo? Por que comprar algo para outros, se você comprar algo para você mesmo? Por que pensar nos outros, se você pode pensar em si mesmo?

A vida monástica, como movimento histórico no cristianismo, produziu alguns dos maiores gênios e santos que já pisaram neste mundo. São Bento, Santo Agostinho, Lutero foram monges. Mas, como tudo que os homens fazem tem algum porém, já produziu as maiores bizarrices também. Há relatos de monges no passado que, literalmente, ficavam horas olhando para o próprio umbigo, até que entrassem em um estado de êxtase espiritual, no qual, supostamente, se encontrariam com o Senhor Jesus.

Eu não sei se fazer isso pode ajudar a chegar ao tal êxtase e, no que toca a mim pelo menos, duvido que algum deles tenham alguma vez se encontrado com o Senhor Jesus por ter ficado horas ininterruptas olhando, concentradamente, pra o próprio umbigo.

Hoje temos poucos monges olhando para o próprio umbigo. Na verdade, os monges de hoje em dia são bastante envolvidos na sociedade, tentando cuidar dos outros, dos mais pobres. Eles abandonaram o umbigo há um tempo. Em compensação, temos um mar de gente olhando, cada um, para o seu próprio umbigo. E, o que é pior, dizendo que assim é que tem que ser, e aconselhando uns aos outros a serem assim.

Aquele que vê a carteira do outro caindo no chão, e, correndo, a devolve é o “santinho” o “trouxa”. Aquele que perde um emprego por falar a verdade, e não enganar um cliente, é o “moralista” - bem, na verdade a lista de adjetivos é diferente e bem mais baixa, mas não cabe colocar aqui neste texto. E o que decide manter uma vida sexual pura? Esse, coitado, é uma corsa (os entendidos entenderão), um frouxo, um banana, emasculado. Ou, no caso da moça, é impronunciável o tipo de afronta que ela sofrerá por isso. O problema, para esclarecer bem este último caso, é que as pessoas não podem entender porque alguém se privaria, a qualquer momento, de algo tão prazeroso como o sexo! Alguém que não pensa somente em como o “eu” será satisfeito. Alguém que não sonha constantemente com a satisfação dos seus próprios desejos (sim! Porque, acredite você ou não, os santinhos também tem desejos, só que não fazem deles a sua prioridade) é imediatamente taxado como tolo, imbecil.

O amor próprio, o desejo de cuidar e satisfazer a si mesmo, tornou-se o valor moral que fundamenta toda a ação humana. Tudo tem que ser explicado, de alguma maneira, pelos interesses, manifestos ou ocultos, do indivíduo.

Para deixar esse assunto bem claro, pense na pergunta que guia as decisões dessas pessoas. Será: "o que eu quero fazer?" Ou será: "o que é certo fazer?" ?

Não estou dizendo que ninguém pergunte sobre o que é certo e errado. Estou dizendo que essa pergunta não dirige as decisões desse grande número de pessoas.

Para ser justo, tenho que admitir que: primeiro, isso não é privilégio da pós-modernidade, é um traço da humanidade caída; segundo, que obviamente há abusos dos que dizem ser contra esse tipo de filosofia de vida, e não é deles que estou tratando agora; terceiro, que o amor próprio não é, por si só, o problema. A questão do amor próprio é o abuso dele. É fazer do amor próprio o guia e a prioridade da sua vida. Deus sabe que você se ama, eu sei que você se ama, e você sabe que eu me amo. Nós não temos que nos esforçar para isso, porque nós já nos amamos. Demais até.

Bom, feitas essas ressalvas, posso agora falar o que realmente quero. E se você está perdendo a paciência, por favor, aguente mais um pouco. Já chegamos! Se sair agora vai perder a cereja do bolo!

Aquilo que eu acredito que pode nos ajudar a sair do problema de baixa autoestima sem, contudo, cair no método umbigocêntrico que acabei de refutar.

Veja o que o Senhor Jesus disse: “aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas.”

Eu creio que humildade em Jesus é condescendência: Ele baixou de sua glória, por algum tempo, e tomou a nossa natureza, tornando-se Homem. Mas, humildade em nós é menos do que condescendência. Veja que, no nosso caso, nós temos um trono de glória para deixar para trás, a não ser o da falsa glória, ou, falando como o Apóstolo, o da vanglória.

Portanto, humildade, no nosso caso, é ser sincero. É parar de fingir que somos melhores do que somos. Parar de mentir e regurgitar “boas obras” que nunca praticamos, santidade que nunca tivemos, misericórdia que nunca demos, verdades que nunca falamos, coragem que nunca tivemos, bravura que nunca mostramos. Quando Jesus se fez pecado por nós, foi condescendência. Quando nós confessamos que somos maus e pecadores, é sinceridade.

Quando entendemos isso, alguns efeitos se seguem: 1- paramos de justificar os nossos erros – pecados. Claro, porque não tem justificativa, e estamos sendo sinceros, não podemos inventar uma. 2- paramos de culpar os outros pelos nossos erros – pecados. Claro, porque a culpa não é deles, e estamos sendo sinceros, não podemos caluniá-los. 3- abrimos caminho para a transformação. Claro, porque nunca íamos transformar nada enquanto continuássemos escondendo toda aquela terra e cabelos embaixo do tapete. 4- se adicionarmos fé em Jesus à equação, podemos ser perdoados e libertos daquele vício que estávamos tentando esconder. 5- a nossa autoestima melhora.

Como se humilhar pode melhorar a sua autoestima? Simples: você sente paz, porque não tem mais que provar para ninguém uma mentira. Porque não tem que se parecer com algo que não é, e um peso enorme cai dos seus ombros, não quando você se defende, mas quando você confessa a sua própria miséria. Um homem humilde acha fácil rir de si próprio. Se lhe acham pobre, ele não se ofende, porque sabe que não tem nada mesmo a oferecer a ninguém. É muito difícil machucar a autoestima de um homem humilde, mas um homem orgulhoso se fere facilmente. A autoestima de um homem que sabe que merecia o inferno, mas não vai para lá porque é amado do Senhor, não se abala facilmente, porque não esta baseada nas suas próprias qualidades mas nas qualidades – atributos – Daquele que nunca muda, e que é eterno.

Penso que essa é uma maneira muito melhor de lidar com os problemas de autoestima. E falo como alguém que luta com isso igual a você! Desde a adolescência eu enfrentei esses problemas, e lidei com eles de diversas maneiras que, hoje, considero estúpidas. Algumas vezes me retraindo e me escondendo, como se sozinho comigo mesmo, no meu mundo, eu pudesse ser tão bom quanto queria que os outros achassem que eu era. Outras vezes me impondo, tentando fazer os outros concordarem comigo em quão bom eu era. Me sentia o máximo quando recebia algum elogio. E me sentia um lixo quando recebia qualquer crítica. Hoje, contudo, me sinto envergonhado quando recebo elogios, porque sei que não os mereço, e que sou, na verdade, muito inferior à imagem de bom menino que me é colocada. Quando recebo críticas, avalio elas criticamente. Quero saber se posso melhorar em algo, ou se estou criticado por fazer a coisa certa.

Rir de si mesmo, e saber que não é tão bom assim, nos ajuda a ser felizes, gratos. A levar os problemas com mais paciência e perseverança. A aceitar derrotas como lições para as próximas batalhas.

Portanto, o que posso dizer? Seja humilde, e seja feliz.


E só para deixar bem claro, e que nada fique oculto ou sem ser dito abertamente. A conclusão lógica oculta no que acabo de escrever é que não temos nenhum problema com baixa autoestima. O nosso problema é com uma autoestima alta demais, que nos coloca contra Deus e contra os outros, e nos impede de nos relacionar, amar, se importar, e ser alegres.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Sobre ser honesto a respeito de si mesmo

Dia desses um amigo me disse que o problema das pessoas é que elas não sabem o quão perfeitas elas são. A solução para tais pessoas não é tentar corrigi-las, dizendo o quão mau é o comportamento delas, mas sim ensinando-as o quão boas elas já são.

Eu olhei desconfiado para ele, como quem acha que ele está contando uma piada. Mas, de fato, ele acreditava nisso, e até mostrou na Bíblia onde ele achava que isso estava escrito. Foi lá na criação do mundo, quando Deus disse que viu tudo quanto havia criado, e “eis que era tudo muito bom”. Então ele estufou-se dizendo: “está vendo!? Fomos criados bons. Então somos bons. Só temos que nos lembrar disso”.

Não preciso insistir muito para dizer que não concordo totalmente com isso, embora não discorde totalmente disso. Como assim? Quero dizer: concordo plenamente que tudo que Deus criou é bom! Concordo, que Deus criou o homem bom. Que, portanto, Deus criou você muito bom. O que eu não concordo, é que você seja, hoje, bom. Ou que a maneira correta de te ajudar seja somente lembrar você o quão bom você já é. Isso é o que não posso concordar.

De fato, Deus é bom, e criou um mundo bom. Mas o homem, no exercício de sua liberdade, abusou dela e caiu. E o resto da história você está vivendo hoje. A solução de Deus não foi dizer para o homem lá no jardim: “Oh não! Você é bom! Você é maravilhoso! Você não tem defeitos! Você precisa se lembrar do quão bom Eu te criei!”.

O homem caiu, e mais rápido do que ninguém, Deus declarou ao homem o que isso significava: ele não era mais bom, nem perfeito, nem santo. O homem, depois da queda é mau, imperfeito e profano.

Tanto é assim, que Deus não deu ao homem mais um tempo no Jardim do Éden, para ver se ele se lembrava do quão bom ele era, e então voltasse. Deus tocou o homem de lá. E colocou um anjo mal-encarado na porta, com uma “espada flamejante” para garantir que o homem não entrasse lá de novo.

Mas não é só o meu amigo que acredita nisso. A maioria das pessoas compram essa ideia de forma irrefletida, a respeito dos outros, e a respeito de si mesmas.

Há uma estorinha circulando na internet, há um tempo aliás, de uma suposta tribo africana que chama os seus criminosos para uma reunião no centro da aldeia na qual todos, cada um por sua vez, fala para ele todas as qualidades que ele tem, como ele é bom, para que ele possa se lembrar de sua verdadeira natureza e então deixar de ser um criminoso.

Quem é que sabe se isso é verdade? Se essa tribo existe ou não? Eu não sei.

Bom, o fato é que nós podemos falar algo bom aos homens, não lembrando-lhes de uma suposta bondade que eles já tem. Mas lembrando-lhes do quão bons eles deveriam ser. E do quão bons eles podem ser. Explico.

Quando falo do quão bom o elemento deve ser, faço ele se lembrar do quão bom ele foi criado por Deus, e de como a vontade de Deus é boa para ele. Isso é o que chamamos de pregar a lei. São Paulo, São Pedro, Estevão, John Wesley, George Whitefiled, Charles Spurgeon, Ray Comfort, William Burt Pope, e a lista segue, dos maiores evangelistas e teólogos da história do cristianismo que ensinam a mesma lição: a lei é o professor que Deus usa para conduzir o homem a Jesus.

Nós dizemos ao homem como Deus o criou bom. E explicamos o quão bom é esse bom no qual ele foi criado. É o bom dos 10 mandamentos. O bom do maior mandamento de todos, e do segundo semelhante a ele (preciso lembrar você quais são esses mandamentos?). Não demora muito para que ele perceba que está muito longe de ser bom desse jeito. E se demorar, nós aceleramos o processo explicando como ele quebrou cada um dos mandamentos ao longo da sua vida, se tornando sempre pior e mais distante de ser como foi criado para ser.

É assim que ensinamos ao homem o quão bom ele deveria ser. O propósito de pregar assim é conduzir o homem ao arrependimento. Mas não podemos terminar aqui. Porque o evangelho é uma boa notícia, e dizer aos homens o quão maus eles são, embora seja uma verdade, ainda não é uma boa notícia. É contudo, parte da notícia, e é importante fazer isso claro para preparar os corações daqueles que nos ouvem, de modo a que recebam a mensagem do evangelho com alegria, quando nós passarmos para o segundo ponto.

Agora vamos então ao segundo estágio: ensinar o homem o quão bom ele pode ser!

Aí, agora ele está arrependido, e desconfiado de si mesmo, podemos falar com entusiasmo que Jesus é o salvador. Ou seja, quem pode fazer o homem ser o que ele foi criado para ser: bom.

O problema da nossa pregação, e da fé de muitos crentes, é que eles acreditam somente no perdão e não na salvação. Porque o perdão é simplesmente dizer que Jesus pagou o preço do seu pecado na cruz, e que Deus, então, com base na obra de Cristo, e por meio da sua fé, não te cobra, não te condena. Mas salvação, é outra coisa. Salvação é para que você não só não seja condenado, mas para que não tenha de que ser condenado. É te livrar não só da condenação pelos seus crimes, mas dos seus crimes. De tal maneira é a salvação, que o salvo é livre não só da pena, mas do crime.

Como São Paulo explica: o que mentia não mente mais, mas fala a verdade com o seu próximo; o que roubava, não rouba mais, mas trabalho com as próprias mãos para que possa ter e ajudar ao que não tem.

O Senhor Jesus também explica isso. Veja como quando ele salvou a mulher adúltera que estava prestes a ser apedrejada. Ele não salvou ela somente da pena (apedrejamento) mas do pecado: “nem Eu tampouco te condeno. Vá e não peques mais”.

Então, ela recebeu, naquele momento, não só uma sentença favorável para não ser condenada, mas também uma carta de alforria para ser livre, e não pecar mais.

É a junção perfeita do arrependimento e da fé. Como diz o hino antigo: “resgatados fomos, para nunca mais pecar”!

Há vários vídeos de professores na internet dizendo que a melhor maneira de ensinar um aluno é dizer o quão bom ele é, elogiá-lo e inflar o ego dele o máximo que você puder. Realmente, elogiar é algo bom. Mas a Bíblia também fala de punições, repreensões, admoestações. Tudo isso faz parte do verdadeiro amadurecimento. E toda criança tem o direito de ser repreendida quando faz o mal, e elogiada quando faz o bem. É assim que se ensina.

Não posso, de forma alguma, discordar que, em muitos casos, fazer elogios é eficaz e ajuda realmente crianças que não conseguem se comportar bem. Principalmente quando o problema do aluno não é uma pura perversidade, mas um padrão de pensamento a respeito de si mesmo, que não abre espaço para ser algo melhor. Quando ele se vê sempre fraco, lento, improdutivo, pode ser que passe manifestar pecados como preguiça, que são na verdade fruto do desinteresse que é gerado pela falta de autoconfiança. Nesses casos, é útil fazer que a criança entenda que ela tem toda a capacidade de fazer como qualquer outro. Que ela tem a inteligência, a força e a beleza que necessita. Mas uma vez afirmada essa realidade, a criança precisa entender que a preguiça não será tolerada, assim como bater nos amigos, humilhá-los, abusar da paciência do professor e dos amigos, etc.

Jó, um dos poucos homens na Bíblia aos quais o próprio Deus elogia em seu caráter e moral, disse: “Ainda que eu fosse justo, não lhe responderia; antes, ao meu Juiz pediria misericórdia”. Se Jó, que era Jó, pediria misericórdia, o que eu pediria?